Em contramão
A minha passagem por Moçambique, já lá vão mais de dez anos (o tempo passa a correr) trouxe-me mundo, a capacidade de ver e analisar de outra forma e muitas experiências que guardo com saudade. Das muitas e boas recordações, histórias, aventuras e peripécias, lembro-me do impacto cultural e civilizacional na minha chegada. Pessoas novas, hábitos diferentes que me obrigaram a adaptações e a capacidade de me moldar a formatos que até então me eram desconhecidos. Na primeira semana que conduzi um carro, tive logo o desafio de conduzir até Durban (África do Sul). Para quem não sabe, em ambos os países africanos, o volante é à direita por influência da Commonwealth. E conduzir do outro lado, respeitando prioridades e sinais contrários, exige uma concentração brutal. Não foram raras as vezes que nos primeiros dias me dirigia para o lado contrário do carro e depois tinha que dar a volta, em que olhava para o lado errado da estrada quando queria atravessar. Nessa minha ida ao país vizinho dei por mim a fazer uma rotunda ao contrário e a gritar estupefacto que toda a gente estava a fazer o circuito em contramão. Claro que rapidamente me dei conta que era eu que estava mal mas a primeira impressão foi “que gente é esta que está toda a vir de frente para mim?!”.
Costumo associar essa minha estupefação momentânea a algumas pessoas que por aí andam. Gente que se acha dona e senhora da moralidade e da certeza do que é correto ou não. Que se consideram intelectuais de outra estirpe, impolutos e capacitados do dom de ver muito mais à frente do que os outros. Não aceitam outras opiniões, rejeitam quem pensa de forma diferente e têm a nítida noção de que “os outros”, ou seja a maioria da sociedade, não vê o óbvio. Insurgem-se contra quem defende outras coisas, troçam com aquilo que julgam ser as limitações da população e sentem que todos à volta são burros e só eles é que são espertos. Apontam o dedo a tudo e mais um par de botas, usam palavras caras e filosofam sobre temas que pouco interessam a quem tem que ir trabalhar todos os dias para sobreviver. Há vários por aí. Acham-se tão acima que por vezes sentem que tudo o que dizem ou fazem é um desperdício perante quem não compreende. São tão certos de que a verdade e a razão estão do lado deles que ficam estupefactos pela incapacidade dos restantes para os admirar e idolatrar.
O problema é que vivem tão obcecados com o seu próprio umbigo que tendem sempre a ver tudo apenas e só com os seus olhos sem terem a capacidade de calçar os sapatos dos outros. Fazem lembrar um programa de meteorologia que vi uma vez no Reino Unido em que perante um nevoeiro intenso diziam que a Europa estava isolada. Não eram eles, eram todos os outros. Não têm a capacidade de parar para pensar e de colocar sequer a hipótese de serem os próprios a ir em contramão. Todos os outros é que estão errados e só eles é que estão certos. Só que a vida não funciona dessa forma. Cada pessoa é um ponto de vista, é uma opinião, é uma escolha e uma razão. As pessoas decidem mediante o que acham que é o melhor para elas e têm um fundamento para o fazer, seja ele qual for. E estão no seu direito. Nós podemos achar que estão erradas ou que provavelmente não estão a ver o quadro todo mas temos que saber respeitar. É assim que funciona a democracia, com todos os defeitos que ela tem.
Não somos nós que estamos sempre certos nem os outros que estão errados porque pensam de forma diferente. Quando nos vemos contra corrente é bom também pensarmos porque é que estamos nessa posição. Porque razão pensam os outros todos de forma antagónica. Perceber o que nos rodeia e o que determina as escolhas. Não que tenhamos que mudar de convicções, é bom que nos mantenhamos na estrada em que acreditamos e que não cedamos a carneirismos sociais dos quais sou aliás bastante critico. Mas por vezes é importante esvaziarmos um pouco o nosso ego e aprendermos que o que achamos ser melhor para nós pode de certa forma não ter o mesmo entendimento do outro lado. Nem acharmos que somos donos da razão e que todos os outros são estúpidos ou burros. Há por aí gente que se continua a achar na propriedade do que é melhor para a comunidade mesmo que essa lhes mostre todos os dias o contrário. É saber lidar…