Guiana denuncia incursão de barco de guerra venezuelano nas suas águas
A Guiana denunciou hoje a incursão de um barco de guerra da Marinha venezuelana em águas do Essequibo, região em disputa com a Venezuela, onde a ExxonMobil realiza a exploração de jazidas petrolíferas.
A denúncia, segundo a imprensa venezuelana, foi feita pelo Presidente da Guiana, Irfaan Ali, num comunicado lido em vídeo no Facebook. "Pelas 07:00 horas, um navio de patrulha da Marinha venezuelana entrou em águas guianenses. Durante esta incursão, aproximou-se de vários bens nas nossas águas exclusivas", denunciou.
Irfaan Ali explicou que a Guiana pôs "os seus parceiros internacionais em alerta" após o barco venezuelano "ter informado os navios de produção, armazenamento e descarga flutuantes (FPSO) do bloco Stabroek de que estavam a operar em águas internacionais disputadas".
No entanto, disse que os FPSO "estão a operar legalmente dentro da zona económica exclusiva da Guiana".
Os EUA já condenaram o incidente, sublinhando tratar-se de uma violação do território marítimo da Guiana e advertindo que haverá consequências. "A ameaça dos navios de guerra venezuelanos contra a unidade flutuante de produção, armazenamento e descarga da ExxonMobil é inaceitável e constitui uma clara violação do território marítimo internacionalmente reconhecido da Guiana. Qualquer nova provocação terá consequências para o regime de Maduro", assinalou fonte do Departamento de Estado dos EUA através da sua conta X.
De momento não é conhecida uma reação oficial da Venezuela.
Em 17 de fevereiro último o Presidente da Guiana, Irfaan Ali, anunciou que as autoridades guianenses estavam a realizar uma investigação exaustiva sobre um "grave" ataque a seis soldados, no rio Cuyuni, perto da fronteira com a Venezuela. "Estamos a levar isto muito a sério (...) Isto é grave, porque eles dispararam contra uniformizados (...) vamos receber a avaliação e depois discutiremos o nosso procedimento, que é importante para a proteção dos nossos homens e mulheres de uniforme e também da nossa soberania", disse o Presidente guianense.
Segundo a Força de Defesa da Guiana (GDF), os soldados guianenses foram alegadamente atacados por atiradores mascarados do lado venezuelano.
Em resposta o Ministério de Relações Exteriores (MRE) da Venezuela acusou o Governo da Guiana de divulgar "uma notícia falsa" para desviar a atenção sobre "violações do direito internacional" cometidos pelo vizinho país. "Trata-se de uma operação de falsa bandeira e de uma notícia falsa desenhada para manipular a opinião pública e desviar a atenção das violações do direito internacional que comete a Guiana na Guiana Essequiba", explicou o MRE mum comunicado divulgado no Telegram.
Por outro lado, o Ministério Público da Venezuela (MPV) anunciou ter iniciado uma investigação sobre as circunstâncias em que várias pessoas ficaram feridas na Guiana Essequiba. "O MP informa que, no exercício das suas competências constitucionais e legais, iniciou uma investigação penal sobre os acontecimentos de 18 de fevereiro de 2025 no território do Estado de Guiana Essequiba, em que um grupo de pessoas foi ferido em resultado da ação das forças de segurança da República Cooperativa da Guiana", referiu no comunicado.
A região de Essequibo, que aparece nos mapas venezuelanos como "zona em reclamação", está sob mediação da ONU desde 1966, quando foi assinado o Acordo de Genebra.
Com cerca de 160 mil quilómetros quadrados, Essequibo é rico em petróleo, representa mais de dois terços do território da Guiana e abriga cerca de um quinto da população, ou cerca de 125 mil pessoas.
A reivindicação da Venezuela tornou-se mais premente desde que a ExxonMobil descobriu petróleo em Essequibo, em 2015, tendo a tensão entre os dois países aumentado desde então.
Para a Venezuela, o rio Essequibo devia ser a fronteira natural, como era em 1777, durante a época do império espanhol. A Guiana argumenta que a fronteira, que remonta à era colonial britânica, foi ratificada em 1899 por um tribunal arbitral em Paris.